Meu vizinho está em obras, ou parece que está, já que tem um motor ligado o dia todo, fazendo um som agudo e irritante, tipo aqueles aparelhos de cortar piso. Além disso, o rádio dele também está ligado, tocando umas músicas sertanejas antigas, bem de corno mesmo. Estou no cômodo mais distante da casa e parece que essas coisas estão do meu lado. Meu vizinho tem problema de audição, então provavelmente ele não tem a mÃnima ideia do incômodo que está causando - se é que sabe que essas coisas estão fazendo barulho.
Parece que estou reclamando, ou com raiva, mas não estou. Acreditem. Fiquei a semana toda pensando no que postar aqui no blog, mas de todas as ideias que tinha, nada me parecia apropriado, não sentia que eu ia realmente colocar "minha alma" no post que escreveria. Escreveria algo forçado, e não gosto disso. Também pensei em tirar as fotos do Desafio Primeira, que participo lá no Instagram, mas, mesmo que eu tivesse a ideia, a foto não parecia boa. Parecia sem vida, sem beleza, apenas um clique qualquer. E assim também parece a minha vida nos últimos dias: sem vida, sem beleza... É por isso que não me irritei com o barulho, apesar de barulho sempre me incomodar, ando tão desanimada que não tenho forças nem pra me irritar com o vizinho.
Desanimada. Desânimo. Vocês conhecem a origem da palavra desânimo? Desânimo vem do latim des + animus. O prefixo "des" quer dizer falta, e "animus" (anima) é alma, sopro de vida. Sem alma, sem vida. Traduz bem como estou me sentindo, e eu sei que não sou a única. Conversei sobre isso com algumas pessoas que conheço, principalmente com pessoas que estudam comigo, e quase 100% disseram estar se sentindo da mesma forma. "Estou precisando que alguém me pegue e vá empurrando pra fazer as coisas". Não tenho vontade de fazer nada. Levanto de manhã, e com muito esforço, me arrumo para ir a aula. Atraso todos os dias, sem me importar. Eu, que sempre odiei chegar atrasada. Não escuto nada do que os professores falam, ou, se escuto, esqueço assim que saio dali. Fico rabiscando o caderno. Tenho preguiça de conversar com meus colegas. De andar até em casa. De fazer comida, de arrumar a cozinha, de ligar o computador... Minha vontade é de ficar deitada o dia inteiro, sem fazer mais nada. Queria ser como um celular, que basta ligar na tomada e no outro dia está no pique de novo. Eu durmo, e no outro dia, acordo como se tivesse sido atropelada por um caminhão.
Não falo sobre isso com todo mundo. De alguma forma, as pessoas fazem você sentir que seu cansaço é inferior ao delas, que você não tem direito - não mais que elas - de se sentir assim. Afinal, eu "só estudo" e "não tenho nada para fazer o dia inteiro", enquanto elas trabalham, cuidam da casa, dos filhos e sei lá mais o que. Eu sei disso. Sei que fazem mais. Mas meu corpo, ou melhor, minha mente, insiste em querer ficar deitada na cama, sem fazer nada. Não por preguiça, eu nunca tive preguiça dos meus sonhos, dos meus hobbies, mas por desânimo. Por Deus, parece que realmente me falta vida, como se eu tivesse esquecido uma parte dela em algum dia desses, em algum acontecimento. Eu paro e me pergunto o que foi que aconteceu, e se isso vai passar, e não consigo encontrar uma resposta. Pensei que isso iria passar no feriado, mas a única coisa que mudou foi que passei a dormir umas 15 horas por dia ao invés das 8~9 que eu estava acostumada. E o feriado passou e eu voltei ainda mais cansada que antes.
Estava pensando em algumas coisas, e tive uma vontade imensa de simplesmente jogar tudo pro alto. Não falo de desistir do meu curso, ou de parar de sair de casa e ficar só deitada, mas de deixar o celular desligado em um canto qualquer, o notebook também, abrir meu guarda-roupa e pegar meia dúzia de roupas que gosto muito e doar todo o resto. Fazer o mesmo com tudo que tenho. Tirar todo o excesso da minha vida e passar a viver com o mÃnimo possÃvel. Talvez seja esse o motivo da minha falta de vida, não sobra muito pra mim se eu tenho que gastá-la com tudo que eu tenho.







